domingo, 3 de abril de 2011
Tráfico internacional de pessoas e grandes lojas: o que há por trás do que vestimos?
sábado, 19 de abril de 2008
A hora do show!

Em coluna escrita na ultima segunda feira para o jornal Folha de São Paulo, Alba Zaluar fala sobre o modo bárbaro através do qual a mídia se apropriou (e é exatamente essa a palavra que deve ser usada) do caso da jovem Isabella Nardoni, que, como todos sabemos, foi agredida e arremessada de um prédio em São Paulo. Conforme coloca Alba: “O julgamento de acusados, segunda a legislação vigente, tem rituais próprios e deve seguir regras de conduta de todos os atores para que haja segurança quanto à decisão final de serem culpados ou inocentes. Ela se dá no tribunal de júri e, se for bem feita, aprimora a cultura jurídica de toda a nação. O que vimos foi mais que afobação nas cenas gravadas todos os dias, de manhã, de tarde e de noite para o Grande Irmão. Foi o açodamento na condenação dos dois principais acusados pela platéia que agia segundo impulsos emocionais característicos do comportamento de multidão. Mas alimentados por declarações de promotores, testemunhas e alguns policiais sobre o andamento do processo. A mídia virou o tribunal. A imprensa cobra o que resta a esclarecer como se fosse ela o veículo para elucidar o crime bárbaro cometido. Estamos diante do espetáculo-drama midiático que se apropriou da proclamação de justiça e que vende. Não se surpreendam se houver uma pesquisa on-line ou telefônica para saber quantos condenam os acusados. Com percentual e tudo.”
De fato, como diz a autora, “a mídia virou o tribunal”, ou seja, ela tem buscado instrumentos cada vez mais eficazes para se inscrever não somente como responsável por um registro dos fatos, mas sim como parte da própria máquina condenatória. Esses dias vi um jornalista falando que a mídia é “parceira” da justiça e não devemos nos enganar crendo que essa “parceria” significa respeito e transparência. A parceria da qual esse jornalista falava pode muito bem ser lida na chave da competição pela “verdade”, ou, pela representação legítima da violência ocorrida com a garota.
Em minha dissertação de mestrado busquei compreender justamente esses métodos e a visão dos profissionais ligados à televisão e vi que o buraco é bem mais embaixo. Isso porque quando os jornalistas falam de “verdade”, esse termo ganha um caráter específico na televisão. Mostrar a “verdade” significa tornar visível o fato que se pretende elucidar, bem como a própria posição ocupada pelo repórter em seu campo de atuação. E os repórteres fazem isso buscando estar sempre à frente dos demais e inclusive da própria polícia (que por diversos momentos também acaba cedendo ao jogo midiático).
Sem muito esforço é plenamente possível recordarmos outros casos cujo tratamento redundou nos mesmos efeitos no Brasil. Quem não se lembra do seqüestro de Wellington Camargo, irmão de uma das duplas sertanejas mais conhecidas do país. Naquele momento um dos programas de maior sucesso era o Programa do Ratinho e este apresentador (Ratinho), no momento crucial (quando já havia algum tempo que Wellington se encontrava nas mãos dos bandidos) do seqüestro, chegou a propor um disque 900 para que a população juntasse um milhão de reais a título de resgate, quando na mesma tarde os seqüestradores haviam prometido soltar Wellington por 300 mil. No dia seguinte um pedaço da orelha da vítima foi endereçada à família.
Também podemos lembrar de um caso recente em que uma criança morreu subitamente vomitando um líquido branco que, posteriormente serviu de base para que a mãe fosse acusada da morte como se tivesse oferecido cocaína à menina. Diversos telejornais incriminaram a mãe de modo que na prisão preventiva (solicitada graças ao show mediático) a mulher fosse vítima de espancamento por parte das demais presas. Pouco tempo após sua soltura a verdade foi descoberta e apontou para a inocência da mulher e para a ausência de qualquer substância tóxica no corpo da criança.
Outro ponto importantíssimo do texto de Alba que é o fato de que nos becos e favelas muitos são os casos de pessoas inocentes julgadas antecipadamente pela população. Tal afirmação é baseada em dados divulgados pelo estudo de Nanci Cárdia e Sérgio Adorno do Núcleo de Estudos da Violência da USP.
Certamente essas considerações por si só devem valer para que possamos reavaliar os modos de atuação de grande parte dos profissionais da imprensa. Há que se pensar certamente em um conselho político capaz de acompanhar (o que não significa censurar) os trabalhos desses profissionais. Através de posturas como as que temos visto atualmente só nos resta esperar que mais crimes sejam cometidos uma vez que a justiça com as próprias mãos, subliminarmente acaba sendo o coro da imprensa. Lamentável (...)
sábado, 12 de abril de 2008
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Para Pensar a violência brasileira 1
Haiti
Composição: Caetano Veloso e Gilberto Gil
Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
terça-feira, 18 de março de 2008
A arte de saber pensar perguntas
Recentemente publiquei um artigo na revista Sociologia Ciência e Vida (Ed Escala; ano II; Nº 14), onde busquei pensar as questões mais importantes em minha opinião, trazidas pelo filme Tropa de Elite. Em grande medida o texto foi motivado por uma certa bronca que fiquei ao ver ecoar de maneira muito uniforme (salvo raras exceções) a opinião de que o filme era fascista na medida em que não dava abertura a um tipo de visão da violência distinta daquela reproduzida pelo personagem Nascimento. O capitão do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) com espírito truculento orientado por uma visão moralista e preconceituosa.
Antes (e depois) da publicação do artigo li diversos textos motivados por uma intenção de linchar simbolicamente o filme de José Padilha, e todos eles, em minha maneira de ver, apenas se baseavam em visões pouco lúcidas a respeito das questões mais importantes trazidas por Tropa de Elite. A primeira coisa a qual me questionei diante desses ataques foi: Se o filme não dá abertura a uma leitura distinta daquela que Nascimento tem da violência, ou seja, se todos os que assistem à Tropa de Elite acabam seduzidos pela brilhante interpretação de Wagner Moura (Capitão Nascimento) e, conseqüentemente, acabam caindo na onda do darwinismo social, por que eu não enxerguei o filme assim desde a primeira vez que o vi? Por que eu não enxerguei Nascimento como um herói e nem vi no filme uma trama capaz de caracterizá-lo dessa maneira? Bem, o que busquei dizer em meu texto é que o grande ponto de Tropa de Elite se encontra na maneira como o filme escancara o inacabamento do projeto democrático e das zonas de comunicação entre o espaço “público” e “privado” no país, abrindo caminhos para pensarmos nas conseqüências que essa democracia mutilada causa no modo através do qual as pessoas pensam a si próprias no Brasil. O ponto ao qual me refiro é aquilo que Luiz Eduardo Soares chama de Double Bind, ou seja, uma dupla mensagem que se encontra em todos nós e que acaba gerando curto-circuitos constantes em nosso modo de lidar com as leis e os limites sociais. Mas isso (creio) está bem retratado no meu texto (que pode ser lido tbm na versão on line: http://www.portalcienciaevida.com.br/ESSO/Edicoes/14/artigo69693-1.asp).
O ponto o qual pretendo chamar a atenção usando este exemplo da recepção do filme pela crítica é o fato de que, na ânsia pelo ataque na imensa maioria dos casos, a grande questão foi deixada de lado. Buscou-se identificar na estrutura interna do filme um problema que não está nela, mas na sociedade em que vivemos e na conseqüente dificuldade de lidar com a questão da violência e da relação com o “outro”. Há pouco tempo uma pesquisa realizada na USP fez duas perguntas às pessoas em nosso país. A primeira: você é racista? E, é claro, quase 100% dos entrevistados disseram não, e a segunda: você conhece alguém que é? E 100% das respostas foram sim. Isso mostra o quanto o problema são os “outros”, como se cada brasileiro fosse uma ilha de justiça cercada de injustiças por todos os lados. E a grande pergunta ligada aos efeitos que Tropa de Elite gerou sobre o público que, creio, ficou esquecida é: Afinal, por que um imenso contingente de pessoas que assistiram ao filme se identificaram com o capitão Nascimento? Para responder essa pergunta é necessário ir um pouco além do filme.
