quinta-feira, 30 de abril de 2009



Saúde Mental
(Rubem Alves)


"Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde
mental. Os que me
convidaram supuseram que eu, na qualidade de
psicanalista, deveria ser um
especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que
aceitei. Mas foi só
parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada
sabia. Eu me explico
:
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas
que, do meu Ponto de
vista, tiveram uma vida mental rica e excitante,
pessoas cujos livros e
obras são alimento para a minha alma. Nietzsche,
Fernando Pessoa, Van
Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski.

E logo me assustei.

Nietzsche ficou louco.

Fernando Pessoa era dado à bebida.

Van Gogh matou-se.

Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em
breve: não suportava
mais viver com tanta angústia.

Cecília Meireles sofria de uma suave depressão
crônica.

Maiakoviski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão
a ser pão para os
vivos muito depois de nós termos sido completamente
esquecidos. Mas será
que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição
em que as idéias
comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem
surpresas, obedientes ao
comando do dever, todas as coisas nos seus lugares,
como soldados em ordem
unida, jamais permitindo que o corpo falte ao
trabalho, ou que faça algo
inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num
barco a vela, basta
fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu,
veja o filme) ou ter
um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a
coragem de pensar o que
nunca pensou. Pensar é uma coisa muito perigosa...
Não, saúde mental elas
não tinham... Eram lúcidas demais para isso. Elas
sabiam que o mundo é
controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo
donos do poder, os
loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.

Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos
testes psicológicos a
que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa
empresa.
Por outro lado, nunca ouvir falar de político que
tivesse depressão. Andam
sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade,
distribuindo sorrisos e
certezas. Sinto que meus pensamentos podem parecer
pensamentos de louco e
por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós
somos muito parecidos
com computadores. O funcionamento dos computadores,
como todo mundo sabe,
requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se
hardware,
literalmente "equipamento duro", e a outra
denomina-se software,
"equipamento macio". Hardware é constituído por todas
as coisas sólidas
com que o aparelho é feito. O software é constituído
por entidades
"espirituais" - símbolos que formam os programas e são
gravados nos
disquetes. Nós também temos um hardware e um
software. O hardware são os
nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que
compõe o sistema nervoso.
O software é constituído por uma série de programas
que ficam gravados na
memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que
fica na memória são
símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo
"espirituais", sendo que o
programa mais importante é a linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no
hardware ou por defeitos no
software. Nós também. Quando o nosso hardware fica
louco há que se chamar
psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções
químicas e bisturis
consertar o que se estragou. Quando o problema está no
software,
entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se
conserta um programa
com chave de fenda. Porque o software é feito de
símbolos, somente
símbolos, podem entrar dentro dele.

Assim, para se lidar com o software há que se fazer
uso dos símbolos eles
podem vir de poetas, humoristas, palhaços, escritores,
gurus, pastores,
amigos e até mesmo psicanalistas... Acontece,
entretanto, que esse
computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade
que o diferencia dos
outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas
que o seu software
produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos
uma música e
choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o
corpo fica excitado.
Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos
e os acessórios, o
hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que
ele toca e se comover.
Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware
não a comporta e se
arrebenta de emoção!
Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que
citei no princípio: A
música que saia de seu software era tão bonita que seu
hardware não
suportou... Dados esses pressupostos teóricos, estamos
agora em condições
de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a
seguirem à risca,
"saúde mental" até o fim dos seus dias. Opte por um
software modesto. Evite
as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para
o hardware. Cuidado
com a música... Brahms, Mahler, Wagner, Bach são
especialmente
contra-indicados. Quanto às leituras, evite aquelas
que fazem pensar.
Tranquilize-se há uma vasta literatura especializada
em impedir o
pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por
que se arriscar a ler
Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser
lidos diariamente. Como
eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com
nomes e caras
diferentes, fica garantido que o nosso software
pensará sempre coisas
iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio
Santos e do Gugu
Liberato. Seguindo essa receita você terá uma vida
tranqüila, embora banal.
Mas como você cultivou a insensibilidade, você não
perceberá o quão banal
ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas
que mencionei, você se
aposentará para, então, realizar os seus sonhos.
Infelizmente, entretanto,
quando chegar tal momento, você já terá se esquecido
de como eles eram..."

*Rubem Alves .
Sobre o tempo e a eternidade.
Campinas: Ed. Papirus, 1996

**Imagem - Pintura de Goya: "Saturn Devouring One of His Children"

2 comentários:

Palavras ao avesso disse...

Yeah!!!

Marcos Vinícius disse...

Uma pena a comparação com um micro... mas de resto excelente texto, em especial a "receita"...
Parabéns pelo blog e pelo post!