A meu tio Luis – 26/01/2012
- Morto! Como assim? Eu não acredito!
- Seja forte filho, procure seus amigos. Procure força neles!
Desligou o telefone. A mãe chorava do outro lado do mundo. Agora não falavam mais sua língua, e o tempo estava triturado, estilhaçado em sua memória. “Como uma pessoa acaba assim?” Foi a pergunta estéril que fez a si mesmo. Faltaram as palavras, sobraram as ruinas. Saiu. Estranho! O mundo continuava seguindo seus rumos. E sem perceber, também seguia o seu.
Comprou um pão numa boulangerie. Entrou no parque Montsouris, alimentou os patos e os gansos que vinham buscar as migalhas em sua mão! Um cachorro se aproximou com um olhar doce, enquanto uma senhora negra com coloridas roupas africanas passava em meio a todo aquele cinza de inverno. Ficou emocionado! “Ele já não pode ver essas imagens”, pensou. Doeu. Continuou a pisar o solo como se andasse sobre outro planeta.
Chegou, abriu a porta, colocou as coisas sob a cadeira. Olhou para os livros, para a cama, e para todos os objetos que continham sua substância. Deitou-se. Pôs-se a olhar para dentro de si, como se o “dentro de si” realmente existisse, e para sua surpresa encontrou algo que poderia chamar de “dentro de si”, onde ele ainda estava vivo. Lembrou-se das brincadeiras que faziam em sua infância e dos inúmeros gestos de altruísmo banalizados pela mecânica do cotidiano. Também lhe vieram à mente alguns momentos difíceis. Sente a dor das vezes em que contribuiu para sua solidão ao invés de tê-lo ajudado. Recorda os dias que ele passou com seu avô em seu leito de morte. A saudade o toma por completo.
Levanta-se, olha o espelho e não se reconhece. Já não é o mesmo! Amputaram-lhe um membro. Embora não veja, sente que lhe falta um membro. A primeira lágrima cai e muitas outras a perseguem. “Você está preso Josef K!”. Não há liberdade possível nessa história. Já conhece o fim. Prefere Michael K e suas minúsculas sementes...
Folheia um livro, ouve uma música e o faz em busca de algo que estimule sua vontade de acordar no dia seguinte. Não encontra. Os sentimentos voltam a derreter-se em lágrimas e o membro continua lhe fazendo falta. Pensa na casa que deixou, na miniatura de cidade que viu da janela do avião que o levava ao desconhecido e entende a falta do membro, pois agora sabe que irá retornar para um lugar que, paradoxalmente, nunca houvera conhecido.

1 comentários:
Lindo texto. Escrever sempre ajuda. Fico feliz que sinta as sementes em suas mãos. Acho que agora as sentirá ainda mais. Sinto muitíssimo por esta perda. Força! Guê
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