segunda-feira, 21 de abril de 2008

Homenagem aos artistas negros brasileiros











Na respectiva ordem: Milton Nascimento, Cartola, Jorge Ben, Gog, Gilberto Gil, Sandra de Sá, Tim Maia, Dom Salvador, Cassiano, Carlos Dafé, Clementina de Jesús e Elza Soares.









Música para pensar!

Carta à Mãe África
Composição: Genival Oliveira Gonçalves - Gog

É preciso ter pés firmes no chão. Sentir as forças vindas dos céus, da missão... Dos seios da mãe África e do coração. É hora de escrever entre a razão e a emoção. Mãe! Aqui crescemos sub-nutridos de amor. A distância de ti, o doloroso chicote do feitor... Nos tornou! Algo nunca imaginavel, imprevisível. E isso nos trouxe um desconforto horrível. As trancas, as correntes, a prisão do corpo outrora...Evoluiram para a prisão da mente agora. Ser preto é moda, concorda? Mas só no visual. Continua caso raro ascensão social . Tudo igual, só que de maneira diferente. A trapaça mudou de cara, segue impunemente. As senzalas são as anti-salas das delegacias. Corredores lotados por seus filhos e filhas...Hum! Verdadeiras ilhas, grandes naufrágios. A falsa abolição fez vários estragos. Fez acreditarem em racismo ao contrário. Num cenário de estações rumo ao calvário. Heróis brancos, destruidores de quilombos. Usurpadores de sonhos, seguem reinando... Mesmo separado de ti pelo Atlântico. Minha trilha são seis românticos cantos. Mãe! Me imagino arrancado dos seus braços. Que não me viu nascer, nem meus primeiros passos. O esboço! É o que tenho na mente do teu rosto. Por aqui de ti falam muito pouco. E penso... Qual foi o erro cometido? Por que fizeram com agente isso? O plano fica claro... É o nosso sumisso. O que querem os partidários, os visionários disso. Eis a qüestão... A maioria da população tem guetofobia. Anormalia sem vacinação. E o pior, a triste constatação: Muitos irmãos, patrocinam o vilão... De várias formas, oportunistas, sem perceber. Pelo alimento, fome, sede de poder. E o que menos querem ser e parecer... Alguém que lembre, no visual você. ( Refrão 2x ) A carne mais barata do mercado é a negra, A carne mais marcada pelo Estado é a negra. A carne mais barata do mercado é a negra. A carne mais marcada pelo Estado é a negra. Os tiros ouvidos aqui vêm de todos os lados. Mas não se pode seguir aqui agachado. É por instinto que levanto o sangue Banto-Nagô... E em meio ao bombardeio. Reconheço quem sou, e vou... Mesmo ferido, ao fronte, ao combate. E em meio a fumaça, sigo sem nenhum disfarce. Pois minha face delata ao mundo o que quero: Voltar para África, viver meus dias sem terno. Eterno! É o tempo atual, na moral. No mural vedem uma democracia racial. E os pretos, os negros, afro-descendentes... Passaram a ser obedientes, afro-convenientes. Nos jornais, entrevistas nas revistas. Alguns de nós, quando expõem seus pontos de vista. Tentam ser pacíficos, cordiais, amorosos. E eu penso como os dias tem sido dolorosos. E rancorosos, maldosos muitos são. Quando falamos numa miníma reparação: Ações afirmativas, inclusão, cotas?!-O opressor ameaça recalçar as botas.. Nos mergulharam numa grande confusão Racismo não existe e sim uma social exclusão. Mas sei fazer bem a diferenciação. Sofro pela cor, pelo patrão e o padrão. E a miscigenação, tema polémico no gueto. Relação do branco, do índio com preto. Fator que atrasou ainda mais a auto-estima:-Tem cabelo liso, mas olha o nariz da menina. O espelho na favela após a novela é o divã. Onde o parceiro sonha em ser galã. Onde a garota viaja... Quer ser atriz em vez de meretriz Onde a lágrima corre como num chafariz. Quem diz! Que este povo foi um dia unido. E que um plano o trouxe para um lugar desconhecido. Hoje amado (Ah! muito amado..), são mais de quinhentos anos. Criamos nossos laços, reescrevemos sonhos. Mãe! Sou fruto do seu sangue, das suas entranhas. O sistema me marcou, mas não me arrebanha. O predador errou quando pensou que o amor estanca. Amo e sou amado no exílio por dona Sebastiana ( Refrão 2x ) A carne mais barata do mercado é a negra. A carne mais marcada pelo Estado é a negra. A carne mais barata do mercado é a negra. A carne mais marcada pelo Estado é a negra

sábado, 19 de abril de 2008

A hora do show!


Em coluna escrita na ultima segunda feira para o jornal Folha de São Paulo, Alba Zaluar fala sobre o modo bárbaro através do qual a mídia se apropriou (e é exatamente essa a palavra que deve ser usada) do caso da jovem Isabella Nardoni, que, como todos sabemos, foi agredida e arremessada de um prédio em São Paulo. Conforme coloca Alba: “O julgamento de acusados, segunda a legislação vigente, tem rituais próprios e deve seguir regras de conduta de todos os atores para que haja segurança quanto à decisão final de serem culpados ou inocentes. Ela se dá no tribunal de júri e, se for bem feita, aprimora a cultura jurídica de toda a nação. O que vimos foi mais que afobação nas cenas gravadas todos os dias, de manhã, de tarde e de noite para o Grande Irmão. Foi o açodamento na condenação dos dois principais acusados pela platéia que agia segundo impulsos emocionais característicos do comportamento de multidão. Mas alimentados por declarações de promotores, testemunhas e alguns policiais sobre o andamento do processo. A mídia virou o tribunal. A imprensa cobra o que resta a esclarecer como se fosse ela o veículo para elucidar o crime bárbaro cometido. Estamos diante do espetáculo-drama midiático que se apropriou da proclamação de justiça e que vende. Não se surpreendam se houver uma pesquisa on-line ou telefônica para saber quantos condenam os acusados. Com percentual e tudo.”
De fato, como diz a autora, “a mídia virou o tribunal”, ou seja, ela tem buscado instrumentos cada vez mais eficazes para se inscrever não somente como responsável por um registro dos fatos, mas sim como parte da própria máquina condenatória. Esses dias vi um jornalista falando que a mídia é “parceira” da justiça e não devemos nos enganar crendo que essa “parceria” significa respeito e transparência. A parceria da qual esse jornalista falava pode muito bem ser lida na chave da competição pela “verdade”, ou, pela representação legítima da violência ocorrida com a garota.
Em minha dissertação de mestrado busquei compreender justamente esses métodos e a visão dos profissionais ligados à televisão e vi que o buraco é bem mais embaixo. Isso porque quando os jornalistas falam de “verdade”, esse termo ganha um caráter específico na televisão. Mostrar a “verdade” significa tornar visível o fato que se pretende elucidar, bem como a própria posição ocupada pelo repórter em seu campo de atuação. E os repórteres fazem isso buscando estar sempre à frente dos demais e inclusive da própria polícia (que por diversos momentos também acaba cedendo ao jogo midiático).
Sem muito esforço é plenamente possível recordarmos outros casos cujo tratamento redundou nos mesmos efeitos no Brasil. Quem não se lembra do seqüestro de Wellington Camargo, irmão de uma das duplas sertanejas mais conhecidas do país. Naquele momento um dos programas de maior sucesso era o Programa do Ratinho e este apresentador (Ratinho), no momento crucial (quando já havia algum tempo que Wellington se encontrava nas mãos dos bandidos) do seqüestro, chegou a propor um disque 900 para que a população juntasse um milhão de reais a título de resgate, quando na mesma tarde os seqüestradores haviam prometido soltar Wellington por 300 mil. No dia seguinte um pedaço da orelha da vítima foi endereçada à família.
Também podemos lembrar de um caso recente em que uma criança morreu subitamente vomitando um líquido branco que, posteriormente serviu de base para que a mãe fosse acusada da morte como se tivesse oferecido cocaína à menina. Diversos telejornais incriminaram a mãe de modo que na prisão preventiva (solicitada graças ao show mediático) a mulher fosse vítima de espancamento por parte das demais presas. Pouco tempo após sua soltura a verdade foi descoberta e apontou para a inocência da mulher e para a ausência de qualquer substância tóxica no corpo da criança.
Outro ponto importantíssimo do texto de Alba que é o fato de que nos becos e favelas muitos são os casos de pessoas inocentes julgadas antecipadamente pela população. Tal afirmação é baseada em dados divulgados pelo estudo de Nanci Cárdia e Sérgio Adorno do Núcleo de Estudos da Violência da USP.
Certamente essas considerações por si só devem valer para que possamos reavaliar os modos de atuação de grande parte dos profissionais da imprensa. Há que se pensar certamente em um conselho político capaz de acompanhar (o que não significa censurar) os trabalhos desses profissionais. Através de posturas como as que temos visto atualmente só nos resta esperar que mais crimes sejam cometidos uma vez que a justiça com as próprias mãos, subliminarmente acaba sendo o coro da imprensa. Lamentável (...)



sábado, 12 de abril de 2008


Para pensar a violência brasileira 2





Trecho do documentário
Notícias de uma guerra particular de João Moreira Salles e Kátia Lund (1999)

sexta-feira, 11 de abril de 2008


Para Pensar a violência brasileira 1


Haiti


Composição: Caetano Veloso e Gilberto Gil

Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui

O Haiti não é aqui









Dois pequenos textos







Como se chama




Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto, como se chama o que sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente - Como se chama essa mágoa e esse rancor? Estar ocupada, e de repente parar por ter sido tomada por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota - Como se chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar: como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta. Qual é o nome? E este é o nome (Clarisse Lispector)




Canção Mínima



No mistério do sem-fim,
equilíbra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
e no canteiro uma violeta,
e sobre ela o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta
(Cecília Meireles)


























Momento Laerte 2 - O preço que o corpo paga





quinta-feira, 10 de abril de 2008

O dia da defesa!


Bem, eu havia prometido que não transformaria esse Blog em um diário, mas hoje vou falar um pouquinho da minha defesa de mestrado porque foi um dos momentos mais importantes de minha vida, certamente. Ao longo desses 3 anos, passei por muitas mudanças e em grande medida entendi que minha profissão (as Ciências Sociais) dizem respeito sobretudo a mim mesmo e às necessidades que uma parte de mim (aquela mais secreta) tem de responder àquela que mais aparece. É dessa epécie de diálogo entre um sentimento inconsciente e uma postura consciente ou entre as respostas que queremos encontrar e àquelas que queremos esconder que saem os bons trabalhos, e fico feliz de poder dizer que fiz um bom trabalho e que tive isso reconhecido por minha banca (aliás, de uma maneira muito maior do que eu esperava). Em minha dissertação eu busquei pensar o modo pelo qual a violência acaba recontextualizada no interior das disputas próprias ligadas aos profissionais da televisão e para isso fiz um recorte no tempo desde a década de 90 até hoje. Os detalhes do trabalho tomariam muito tempo e poderiam deixar esse texto enfadonho, mas o importante é que após tudo isso pude notar que estou mais desencantado com os "nomes" (que sempre são mais do que só "nomes") como "Antropologia", "Sociologia", "Mestre", "Doutor", etc. Muitas vezes queremos acreditar nisso e é ai que caimos do cavalo pois é nesse momento que o diálogo de que falei entre as respostas que você quer e aquelas que quer esconder deixa de ocorrer e você passa a crer demais em si próprio. Aprendi a desconfiar um pouco mais de mim, a me questionar de uma forma mais significativa e a me reconhecer mesmo naquilo que não desejo. E nesse sentido creio que o mestrado teve um papel muito importante, não no sentido acadêmico e formal, claro, mas em relação a algumas pessoas que conheci e a algumas "dores" que senti. Concluir isso é muito mais do que concluir mais uma parte de minha trajetória acadêmica. Significa redefinir uma história, dando-lhe contornos mais agradáveis e repletos de significado. Escrevo essa pequena nota para agradecer a todos aqueles que de uma maneira ou de outra participaram desse processo e de minha vida. Um grande abraço a todos...

PS: Na foto são as professoras Heloisa Pontes e Maria Filomena Gregori (Minha orientadora - Bibia) e o professor Alexandre Bergamo Idargo. A defesa foi no dia 26/03/08 na Unicamp.