domingo, 23 de março de 2008

sexta-feira, 21 de março de 2008


O dilema do portão

“Tem uma visão do portão, do outro lado do portão, o lado que lhe é negado. Ao pé do portão, bloqueando a entrada, há um cachorro deitado, um cachorro velho, a pele cor de leão marcada por inúmeras cicatrizes. Está de olhos fechados, descansando, cochilando. Além dele, não há nada senão um deserto de pedra e areia, até o infinito. É a sua primeira visão em muito tempo, e não confia naquilo, não confia em particular no anagrama GOD – DOG [Deus – Cachorro]. Literário demais, pensa de novo. Um curso de literatura.
“O homem atrás da mesa evidentemente fartou-se de perguntas. Pousa a caneta, cruza as mãos, olha firme para ela. ‘O tempo todo’, diz ele, ‘Vemos gente como a senhora o tempo todo’.” (COETZEE, 2004, p 247)


Ao ler esses dias o romance Elisabeth Costello, de J. M. Coetzee (Companhia das letras, 2004) fiz uma espécie de “limpeza” de meu purgatório ético (mesmo sabendo que daqui ha algum tempo ele estará sujo novamente). Explico: O livro é uma belíssima coletânea de oito palestras mais um desfecho surpreendente onde a escritora Elizabeth Costello (Uma romancista Australiana que havia ganhado notoriedade na juventude com a publicação, sobretudo, de um livro onde resgata os personagens do romance Ulisses de James Joyce) convive o tempo todo em um universo ambivalente, entre o passado e o futuro, a juventude e a idade madura, a ansiedade e o tédio.
Elisabeth vai aos poucos se mostrando, toute nue, ao se defrontar com situações constrangedoras provocadas pelas provações às quais se vê obrigada a passar diante da teatralização gerada pelos encontros intelectuais para os quais é convidada. Os convites sempre remetem ao passado (A escritora, por exemplo, é sempre apresentada como a autora do romance A casa da rua Ecles, o qual escreveu em sua juventude) e nesse sentido, a impressão que temos é a de que o passado se enraizou em seu corpo como um câncer, à medida que a definiu como a escritora de um certo tipo de romance, que marcou certa época e um certo lugar. Mas ela não é mais só a escritora da Casa da rua Ecles. Ela é outra, a figura velha, defensora das causas dos animais, menos encantada, menos satisfeita com as alegorias próprias do papel de “escritora”.
Aos poucos vamos nos deparando com os vários dilemas éticos de Elisabeth (O que nos obriga a lidarmos com os nossos próprios obviamente). Dilemas que a escritora, apesar de seu humanismo, não sabe lidar muito bem. Isso a faz produzir constrangimentos diversos em suas falas, em seus contatos com outros intelectuais, e, sobretudo, em sua relação consigo mesma.
No oitavo capítulo do livro, Elisabeth se vê obrigada a passar pelo mesmo “processo” que um outro personagem (Josef K), de um outro autor (Kafka), admirado e citado algumas vezes pela escritora, se viu obrigado a passar. Vemos ali a grande dificuldade e os grandes dilemas que permeiam todo o livro em estado bruto. Para poder ter acesso ao outro lado do portão (onde parecem estar todas as grandes respostas) Elisabeth é desafiada a descrever algo no qual crê plenamente, e sua dificuldade a denuncia: “Sou uma escritora, uma mercadora de ficções (...) Tenho apenas crenças provisórias: crenças fixas me atrapalhariam. (...) Sou escritora, e o que escrevo é o que escuto. Sou secretária do invisível (...) esta é a minha missão (...) Não me compete interrogar, julgar o que me é dado.” Com base nesse pensamento Elisabeth faz a seguinte solicitação: “ Solicito minha isenção da regra de que ouço agora falar pela primeira vez, a saber, que todo requerente ao portão tenha de ter uma ou mais crenças”. (p 216)
A escritora não sabe se portar diante da necessidade de definir suas crenças. Sempre busca o terreno movediço das palavras e expressões literárias. Mas o “mundo”, o “mundo” do portão parece não se convencer delas. É necessário definir-se. De certo modo todos os personagens e até o próprio portão fazem parte de sua consciência. Representam as pressões da cobrança e da subseqüente frustração típicas de nossa “condição humana”, sobretudo no sentido “moderno”. É dura a tarefa de estar sempre com a sensação de se encontrar fora do lugar. Talvez os juristas, empresários, economistas, técnicos saibam melhor lidar com o portão porque acreditam num universo definível, num tempo fixo, em leis que não se alteram. Já os escritores (ao menos os que de fato exercem a atividade mais profunda de questionamento) devem conviver com a necessidade infinita de serem “ponte”, de se colocarem sempre “entre” os lados dos grandes embates, como parece ser o existente entre o que chamamos de “Natureza” e o que vemos como “Cultura”.
Esse purgatório ético é “limpo” quando nos sentimos compreendidos, acolhidos, sustentados. Não há maior nobreza nessa condição. Há maior lucidez, e, talvez maior “liberdade” para lidarmos com nossos piores valores (preconceito, raiva, inveja, etc.), e com a angústia dos mistérios e da conseqüente necessidade da crença, que nos interpela a cada segundo, dada nossa finitude e nossa pequenez. Como já disse Fernando Pessoa: “Se a morte é a curva da estrada, morrer é só não ser visto”

terça-feira, 18 de março de 2008

A arte de saber pensar perguntas

Recentemente publiquei um artigo na revista Sociologia Ciência e Vida (Ed Escala; ano II; Nº 14), onde busquei pensar as questões mais importantes em minha opinião, trazidas pelo filme Tropa de Elite. Em grande medida o texto foi motivado por uma certa bronca que fiquei ao ver ecoar de maneira muito uniforme (salvo raras exceções) a opinião de que o filme era fascista na medida em que não dava abertura a um tipo de visão da violência distinta daquela reproduzida pelo personagem Nascimento. O capitão do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) com espírito truculento orientado por uma visão moralista e preconceituosa.

Antes (e depois) da publicação do artigo li diversos textos motivados por uma intenção de linchar simbolicamente o filme de José Padilha, e todos eles, em minha maneira de ver, apenas se baseavam em visões pouco lúcidas a respeito das questões mais importantes trazidas por Tropa de Elite. A primeira coisa a qual me questionei diante desses ataques foi: Se o filme não dá abertura a uma leitura distinta daquela que Nascimento tem da violência, ou seja, se todos os que assistem à Tropa de Elite acabam seduzidos pela brilhante interpretação de Wagner Moura (Capitão Nascimento) e, conseqüentemente, acabam caindo na onda do darwinismo social, por que eu não enxerguei o filme assim desde a primeira vez que o vi? Por que eu não enxerguei Nascimento como um herói e nem vi no filme uma trama capaz de caracterizá-lo dessa maneira? Bem, o que busquei dizer em meu texto é que o grande ponto de Tropa de Elite se encontra na maneira como o filme escancara o inacabamento do projeto democrático e das zonas de comunicação entre o espaço “público” e “privado” no país, abrindo caminhos para pensarmos nas conseqüências que essa democracia mutilada causa no modo através do qual as pessoas pensam a si próprias no Brasil. O ponto ao qual me refiro é aquilo que Luiz Eduardo Soares chama de Double Bind, ou seja, uma dupla mensagem que se encontra em todos nós e que acaba gerando curto-circuitos constantes em nosso modo de lidar com as leis e os limites sociais. Mas isso (creio) está bem retratado no meu texto (que pode ser lido tbm na versão on line: http://www.portalcienciaevida.com.br/ESSO/Edicoes/14/artigo69693-1.asp).

O ponto o qual pretendo chamar a atenção usando este exemplo da recepção do filme pela crítica é o fato de que, na ânsia pelo ataque na imensa maioria dos casos, a grande questão foi deixada de lado. Buscou-se identificar na estrutura interna do filme um problema que não está nela, mas na sociedade em que vivemos e na conseqüente dificuldade de lidar com a questão da violência e da relação com o “outro”. Há pouco tempo uma pesquisa realizada na USP fez duas perguntas às pessoas em nosso país. A primeira: você é racista? E, é claro, quase 100% dos entrevistados disseram não, e a segunda: você conhece alguém que é? E 100% das respostas foram sim. Isso mostra o quanto o problema são os “outros”, como se cada brasileiro fosse uma ilha de justiça cercada de injustiças por todos os lados. E a grande pergunta ligada aos efeitos que Tropa de Elite gerou sobre o público que, creio, ficou esquecida é: Afinal, por que um imenso contingente de pessoas que assistiram ao filme se identificaram com o capitão Nascimento? Para responder essa pergunta é necessário ir um pouco além do filme.

sábado, 15 de março de 2008

Por que ter um blog?

A questão convertida em título deste pequeno texto de apresentação diz respeito ao meu sentimento atual. Afinal, qual o sentido de criar um blog? E para quem se cria um blog? Bem, falando especificamente no meu caso a idéia de criar, ou melhor, recriar (pois confesso. Ja tive um blog com esse mesmo titulo e não deu muito certo) este blog surgiu de uma vontade imensa que tenho de extrapolar os limites que a universidade e as demais instituições "modernas" nos empregam, e poder falar das coisas que gostaria de ouvir. Ou seja, na verdade o blog acaba sendo um espaço para que eu fale de mim para eu mesmo. Seria no minímo ingênuo escrever nesse espaço esperando cativar leitores no fluxo e nas necessidades de rapidez (poderia tbm dizer liquidez?) típicas da internet. Também soaria pretencioso (e sou muito cauteloso quanto a isso). Trocando em miudos, o que espero aqui é poder bagunçar um pouco mais minhas próprias idéias, buscando observar meu próprio olhar e, através disso, tornar não o mundo, mas minha maneira de enxerga-lo menos ordeira e mais caótica. Espero que os poucos que o leiam (se o fizerem) possam me auxiliar nesse processo. Um abraço aos companheiros de viagem.